Matra-Simca Rancho: o génio da improvisação que inventou o SUV à francesa

Da pick-up utilitária ao sonho de aventura
A história começa em 1975, quando Philippe Guédon, diretor técnico da Matra Automobile, se depara com uma restrição orçamental imposta pelo próprio Jean-Luc Lagardère: nada de esbanjar milhões num modelo novo. A Matra tem de se desenrascar com o que tem à mão. Guédon, que conhece as entranhas do Simca 1100 por ter trabalhado nele nos anos 1960, identifica a base ideal: o VF2, versão pick-up da carrinha utilitária Simca 1100. Um chassi moderno, de tração dianteira, suspensão de quatro rodas independentes e, sobretudo, uma traseira perfeitamente disponível para ser reconfigurada.
O projeto recebe o código interno P12. O designer Antoine Volanis idealiza uma superestrutura traseira sobrelevada, generosamente envidraçada, montada numa armação de aço e revestida com uma carroçaria em material composto de poliéster — técnica já dominada pela Matra desde os seus carros de competição. Debaixo do capô, é escolhido o "motor Poissy" de 1.442 cm³, herdado do Simca 1308 GT, pelo valor do seu binário: 80 cavalos, caixa manual de quatro velocidades. Tudo desenvolvido por cerca de 15 milhões de francos, um recorde absoluto de economia.
O próprio Guédon resumiria a receita numa frase que ficou célebre: "É o pão perdido aplicado ao automóvel." Ou seja: aproveita-se o que anda por aí e transforma-se em algo saboroso.
Um nome, dois emblemas, uma longa carreira
O Matra-Simca Rancho é apresentado no Salão de Genebra em março de 1977. Acolhimento entusiasta do público, ceticismo dos analistas — que têm dificuldade em compará-lo a qualquer coisa já existente. Esse desfasamento em relação aos cânones da época será precisamente a força do modelo.
No lançamento, a gama é simples: uma versão de base com cinco lugares, apenas com duas portas laterais (herança direta da carroçaria utilitária VF2), mais uma porta traseira dividida em duas partes. A altura ao solo é aumentada, para-choques em plástico preto e proteções laterais reforçam o visual aventureiro, e jantes de 14 polegadas calçadas com pneus todo-o-terreno específicos Pirelli completam a silhueta. Tudo isto sem tração integral: o motor transversal impedia-o tecnicamente, e o orçamento nunca teria permitido considerá-la de qualquer forma.
Em julho de 1979, na sequência da compra das filiais europeias da Chrysler pela PSA em 1978, o Rancho muda de emblema: passa a chamar-se Talbot-Matra Rancho a partir do ano-modelo 1980. A mudança de nome vem acompanhada de um bem-vindo alargamento da gama. Surgem então a versão X (acabamento superior, bancos em veludo), a versão AS (utilitária de dois lugares, apenas para o mercado francês) e, sobretudo, a Grand Raid — versão de sonho, com dois faróis adicionais de cada lado do para-brisas, guincho e diferencial de deslizamento limitado. Uma resposta engenhosa à ausência de tração às quatro rodas, para quem, mesmo assim, quisesse aventurar-se fora dos trilhos habituais.
A estas juntam-se séries limitadas de posicionamento muito marcado: a Davos (1980, branca com grafismos azul e vermelho e porta-esquis), a Loisirs (1980, branca com monogramas azuis) e, em outubro de 1981, a provocante Midnight — preta, com friso vermelho, jantes em liga leve com desenho de estrela, toques de cromado e um sistema de som completo. O rei da noite, em suma. Uma versão curta Découvrable, com traseira encapotada (apelidada de Brezza em Itália), é também proposta brevemente a partir de 1981, antes de desaparecer já em 1982 devido a problemas de rigidez e da capota.
56 457 unidades e um legado imenso
A produção termina em 1983, com as últimas vendas em 1984. O balanço é espetacular: 56 457 unidades do Rancho saíram da fábrica da Matra em Romorantin — montadas a partir de carroçarias fornecidas pela Heuliez e de componentes mecânicos de Poissy —, ou seja, mais do dobro das 25.000 unidades inicialmente previstas. Um nicho promissor que se tornou um sucesso de proporções relativamente amplas.
O Rancho chega mesmo ao grande ecrã, conduzido por Claude Brasseur em La Boum (1980) e na sua sequela, ao lado de uma certa Sophie Marceau. Encarna então na perfeição o espírito da década: aventura acessível, modernidade descontraída.
Mas o seu legado vai muito além das bilheteiras. Foi o Rancho que levou a Matra a refletir sobre o segmento dos monovolumes — reflexão que, depois de a PSA ter recusado o projeto, acabaria por resultar, na Renault, no Espace de 1984. Sem o Rancho, não haveria Espace. O pão perdido tinha, afinal, sabor para durar muito tempo.
As brochuras do Rancho na Brochure Auto
O Matra-Simca e, mais tarde, o Talbot-Matra Rancho foram objeto de brochuras comerciais cuidadas, testemunhas de uma época em que o marketing automóvel apostava na evasão e na promessa de aventura. Pode consultar e descarregar as brochuras do Rancho disponíveis na Brochure Auto, ou explorar o conjunto de brochuras Talbot conservadas no site.


