Tucker 48: o carro "do futuro" que desafiou os poderosos... e perdeu

crédito da foto Rex Gray
Imagine um sedã americano do pós-guerra equipado com cintos de segurança, um painel de instrumentos estofado, um para-brisas concebido para se soltar em caso de impacto, um arco de segurança integrado na carroçaria e um terceiro farol que gira na direção do olhar do condutor. Um automóvel que reivindicava 192 km/h de velocidade máxima segundo os dados do fabricante, propulsionado por um motor de helicóptero montado na traseira — em 1948. Difícil de acreditar? Pois esta máquina existiu mesmo — em apenas 51 unidades. É a história do Tucker 48, e é uma das mais belas tragédias da indústria automóvel americana.
Preston Tucker, o homem que via longe demais
Nascido a 21 de setembro de 1903 em Capac, no Michigan, Preston Thomas Tucker é, literalmente, um filho do automóvel. O Michigan é Detroit, é o berço das Big Three — General Motors, Ford, Chrysler. Tucker cresce nesse universo, aprende a conduzir aos 11 anos, vende carros ainda adolescente e acumula empregos nas grandes casas: Cadillac, Ford, Studebaker, Chrysler, Dodge. Aprende o ofício por todos os lados, absorve os seus códigos… e os seus limites.
Durante a Segunda Guerra Mundial, Tucker desenvolve para o exército uma torreta de combate rotativa — a "Tucker Turret" —, mais tarde adotada em tanques e aviões. Quando a paz regressa em 1945, a indústria automóvel americana continua a funcionar em piloto automático: as Big Three retomam as suas linhas de pré-guerra assentes em bases técnicas dos anos 1930. Tucker, esse, vê uma janela histórica. A América do pós-guerra quer novidade, modernidade, segurança. Ele vai dar-lhe isso.
O carro que deixava toda a gente estupefacta, do capô ao terceiro farol
Em 1946, Tucker funda a sua empresa em Chicago e aluga uma enorme fábrica anteriormente dedicada ao fabrico de motores de avião. Recruta vários designers, entre eles Alex Tremulis, e um primeiro protótipo é apresentado a 19 de junho de 1947 perante mais de 3 000 convidados e a imprensa mundial. O efeito é imediato: ninguém tinha visto nada assim.
O Tucker 48 — assim batizado em referência ao ano de comercialização previsto — tem 5,56 metros de comprimento, 2 metros de largura, e exibe uma silhueta fuselada que rapidamente lhe valerá a alcunha popular de "Tucker Torpedo". A carroçaria integra um arco de segurança no teto. As portas sobem para o interior do tejadilho para facilitar a entrada. E ao centro do para-choques dianteiro reina um terceiro farol orientável, que se ativa assim que o volante roda mais de 10 graus, iluminando o interior das curvas — uma inovação tão vanguardista que, segundo a Wikipedia, 17 estados americanos tinham na altura leis que limitavam os veículos a dois faróis.
Sob o capô traseiro — pois sim, o motor está montado atrás, uma arquitetura de tração traseira raríssima num sedã americano da época —, Tucker é obrigado a improvisar. O seu próprio motor de 9,6 litros revela-se demasiado complexo para desenvolver dentro dos prazos. A salvação vem da empresa Air Cooled Motors: propõe um seis cilindros boxer em alumínio de 5,475 litros, derivado dos motores de helicóptero Franklin. Adaptado com refrigeração a água e dois carburadores Stromberg, é montado na traseira, num subchassi desmontável em meia hora. Este motor desenvolve 166 cavalos — suficiente para reivindicar 192 km/h de velocidade máxima e um 0 aos 100 km/h anunciado em dez segundos. Números impressionantes para um sedã familiar de quase duas toneladas, em 1948.
A segurança à frente do seu tempo — e isso incomoda
O que mais impressiona no Tucker 48 é a sua obsessão pela segurança passiva. Nos anos 1940, os grandes fabricantes americanos produziam carros pensados como locomotivas de ferro, sem qualquer consideração pelo que acontecia aos ocupantes em caso de choque. Tucker, esse, impõe: para-brisas em vidro de segurança concebido para se soltar de forma limpa em caso de acidente, painel de instrumentos e painéis das portas estofados, estrutura da carroçaria com perímetro reforçado, coluna de direção deslocada para trás do eixo dianteiro. E, pormenor revelador, uma "crash chamber" — uma cavidade vazia à frente do banco do passageiro, livre de qualquer obstáculo, pensada como zona de refúgio em caso de colisão frontal.
Estas inovações, que décadas depois se tornariam norma, incomodam profundamente as Big Three. Um carro mais seguro e mais moderno saído de uma pequena fábrica de Chicago é uma bofetada pública para Detroit.
A conspiração, o julgamento e a queda
No verão de 1948, ainda antes de a produção estar totalmente lançada, a Securities and Exchange Commission (SEC) abre um inquérito contra Preston Tucker por fraude bolsista e publicidade enganosa. Segue-se um julgamento retumbante em 1949, no qual a acusação tenta demonstrar que Tucker nunca teve intenção de construir um carro — apenas de desviar fundos. Entretanto, os fornecedores de aço recuam, a imprensa amplifica o escândalo, e os investidores fogem.
Tucker resiste. Manda estacionar os seus 50 carros em frente ao tribunal para mostrar ao júri que a produção realmente aconteceu. O júri chega mesmo a insistir em experimentá-los. Em janeiro de 1950, Tucker é absolvido de todas as acusações. Mas a fábrica já estava fechada desde 3 de março de 1949, reconvertida em habitação social. A Tucker Car Corporation está falida. Mil e quinhentos funcionários ficam sem trabalho.
Preston Tucker, exausto e arruinado, morre a 26 de dezembro de 1956, aos 53 anos, vítima de cancro do pulmão. Nunca chegou a ver a sua reputação plenamente restaurada em vida.
Um amaldiçoado entre amaldiçoados
A história de Tucker ressoa dolorosamente com outros destinos bem conhecidos dos leitores da Brochure Auto. Malcolm Bricklin, com o seu Bricklin SV-1 em 1974, e John DeLorean, com o seu DMC-12 em 1981, atravessaram tempestades muito semelhantes: a ambição de desafiar os grandes fabricantes estabelecidos, um carro tecnicamente vanguardista, problemas de financiamento, inquéritos governamentais, um julgamento mediático e um encerramento prematuro. Nenhum dos três foi condenado. Todos os três viram a sua empresa morrer antes do veredito. Talvez não seja coincidência.
Uma quarentena de sobreviventes e milhões em leilão
Das 51 unidades produzidas, os registos de colecionadores estimam que entre 40 e 47 carros ainda existem — uma taxa de sobrevivência notável para um automóvel do pós-guerra. A maioria está exposta em museus americanos. Algumas ainda circulam nas mãos de colecionadores apaixonados: Francis Ford Coppola possui um exemplar, exposto na sua propriedade vinícola na Califórnia. Coppola realizou em 1988 o filme Tucker : The Man and His Dream, com Jeff Bridges no papel de Preston Tucker — uma coprodução de George Lucas, também ele antigo proprietário de um exemplar.
Os preços em leilão dão vertigens: segundo as transações registadas, um Tucker 48 negoceia-se entre 1,3 e mais de 2,2 milhões de dólares. Para comparação, Preston Tucker planeava vendê-lo por menos de 2 000 dólares no lançamento.
O carro do futuro, ainda entre nós
O Tucker 48 não é apenas uma curiosidade para apaixonados por automóveis raros. É um manifesto: prova de que a segurança passiva, a aerodinâmica, a arquitetura com motor traseiro e as inovações tecnológicas já eram alcançáveis em 1948, bastando dar-se ao trabalho. E prova também de que a disrupção incomoda — por vezes ao ponto de desencadear processos judiciais.
Apetece-lhe folhear as brochuras originais desta lenda americana feita de apenas 51 unidades? Estão à sua espera na Brochure Auto.


